Amar-te-ei depressa

d    e    v    a    g    a    r

contando os minutos

esperando o tempo

passar…

 

Amar-te-ei sorrindo

cantarolando

desejando que toda hora chegue

e que demore a passar.

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Jardim

É triste que a gente tenha que perder algo às vezes, para se tocar que era bom enquanto tinha. Que gostava, que apreciava, mas que se estava olhando a grama do vizinho enquanto os arbustos do lado de cá já tinham até flores. E por um descuido, acabou-se passando o cortador de gramas em todo o jardim. Sem deixar nada…nada, uma folha sequer! De repente o seu quintal não é mais verde, e só se vê tons de marrom. E não se sente mais o cheiro de terra molhada. E os pássaros não pousam mais na sua fonte. E nem borboletas vem semear novos frutos, porque deixamos as flores morrer.
É necessário cuidar daquilo que se conquistou, enquanto ainda se tem. Não espere que seu amor vá embora para perceber que tudo eram flores -mesmo em dias de outono. Não deixe que seu orgulho seja maior do que seu sentimento.
É pedante insistir sem retorno. É cansativo querer. Mas pior ainda, é perder o que se teve e não mais se têm.

Para onde vai o amor quando deixamos de amar?

 

Tudo se inicia no fim, inclusive o nada.

O fim dá origem a um novo começo. Mais um. Mais um como todos os outros. Flores, chamegos, beijinhos aqui e acolá, abraços, declarações inesperadas. Um frio na barriga quando o celular apita e diz, com aquele som ensurdecedor, que é ele te mandando algo. E o coração quer pular pela garganta. E a gente quer se explodir de tanto que se gosta, se cuida e se sabe.

Todo começo é mais ou menos assim. Alguns tem mais espinhos, outros tem mais flores, mas todos são buquês embalados numa bela embalagem -na qual todo mundo quer ganhar, mas quando ganha, muitas vezes, não se sabe o que fazer com tanta flor. E por ventura, as deixam morrer. Todo começo é genérico e bom. É geralmente, a fase da qual se sente mais saudade quando o término chega. É a fase em que não se conhece o defeito do outro -ou conhece- mas está apaixonado demais pra julgar como defeito, então acaba-se atribuindo adjetivos fofos a tudo que o outro faz, mas que no fundo, incomoda. Vem o tempo,  a rotina,  o costume de ter o outro, e o relacionamento vai por água abaixo -e quase sempre, nem um barco pode salvar.

É chegada uma fase de recolhimento. É a hora do bombardeio de defeitos, dos estancamentos das feridas abertas e dos dedos apontados na cara que nunca cessam -que sempre dizem o que foi escondido, mantido no ínfimo, mas que insistem em sair -agora que foi travada uma guerra pessoal de quem se importa menos. E convenhamos, quem disse que no amor e na guerra valia tudo, não sabia o quanto uma guerra fria entre cabeça e coração, poderia terminar tão mal. E eu finjo que não ligo, enquanto ele finge que não liga. E a gente se presenteia com não-cuidados e não-beijos e não-cumprimentos. E a gente se olha de longe e bate uma saudade, mas nenhum dos dois diz nada, nem uma palavra, nem um gesto que possibilitaria consertar toda essa situação. Nada. Apenas trocamos olhares, com ternura, com carinho -já que olhos não mentem. Se ele sabe que sinto falta, ao certo não sei, mas eu sei que ele sente. E sentir, à essa altura do campeonato, é o primeiro passo para provar que o amor ainda existe, mas em algum lugar que já não pode ser alcançado.

Um dia você me perguntou para onde ia todo o amor quando deixávamos de amar. Tendo pensado muito, entendi que ele se escondeu nos detalhes. Ele espera por uma brecha -tanto minha, quanto sua. Ele está quietinho, esperando uma recaída, uma volta. Ele está em todas as músicas que eu quero dar play, mas não posso ouvir. Em todas aquelas que são puladas da minha lista de reprodução, em todas as fotos que não desejo mais ver, em todas as mensagens que eu espero não mais receber. Nosso amor se escondeu nas pequenas coisas que lembrávamos de nós. Num aceno, num jeito de falar, num sorriso, numa gargalhada. E vez em quando, ainda me recordo. E já não dói mais, mas bate uma saudade danada de tudo que podíamos ter sido, mas não fomos.

E não, o amor não acaba.

Ele fica só na espreita, esperando o passo em falso. A troca de olhares. A mensagem. O abraço. E finalmente, o “eu voltei”.

Qualquer dia nossos caminhos ainda se cruzam. Eu ainda piso no seu pé na hora da dança e você ainda me solta um sorriso. E o amor volta pra nossa vida. Eu sei que sim. Ele não acaba.

Aprendi com o tempo que nada que é forçado, tende a dar certo. Acho que foi aí que percebi que já tínhamos começado errado. Pecamos nesse ponto. Queríamos a todo custo nos encontrar. Nos encontramos. Nos achamos. Nos perdemos. Dissemos adeus. Não voltamos a entrega mesma de antes. Ao aconchego do passado, da certeza, da comodidade. Partimos inteiros, sem olhar para trás, sem deixar um pedaço de si no outro. Não retardamos a partida. Completos partimos então.

Pescador

Me chegou de fininho como quem não queria espantar a presa, enquanto eu só observava. Aproximou-se com passos finos, pouco a pouco, cuidadoso. Olhava-me nos olhos como se não houvesse ninguém mais ao redor. Meio alterada por causa da bebida, eu sorria pra ele anestesiada com os olhos entreabertos. E ele me soltava um riso tímido. Vi ali alguma coisa diferente. Uma chance nova. Me senti em casa -pela primeira vez. Ele me jogou o anzol. Me fisgou, sem dó nem piedade. Resolveu puxar as cordas com sagacidade, fugaz. Me envolvi sem querer naquela rede. E quanto mais eu me debatia, mais eu entrava naqueles fios tramados cuidadosamente. Quanto mais eu queria voltar pro mar, mais eu entrava na vida dele. Ele me colocou no aquário mais bonito, me fez seu pedestal. Éramos iguais, e ao mesmo tempo, a versão oposta do outro. Amávamos os sete mares e tudo o que neles continha. Amávamos as canções e uma porção de coisas em comum. Ali eu quis ficar. Nunca mais tive vontade de sair daquele aquário.

Naquele momento eu era a sereia, e ele o pescador.

“São hard times, my dear”, eu disse. Ele se calou no mesmo instante, me olhando cabisbaixo. Depois grudou os olhos nos meus e disse que se a tempestade estava por vir, logo viria também a calmaria. A calmaria de um mar sem ondas, sem maré, sem nada. Um mar que mais se assemelha a uma lagoa. Sei que ele gosta de pensar que a calmaria é paz. Mas nem sempre é, disso tenho certeza. Calmaria foi antes dele chegar. Os silêncios escondem profundezas sombrias. A calmaria omite as águas turbulentas.